A França prepara uma nova redução de sua área de vinhedos como resposta à crise de excesso de oferta que atinge parte do setor. Um programa de €130 milhões em recursos públicos prevê subsidiar a retirada de até 32,5 mil hectares de videiras, dando continuidade a medidas adotadas nos últimos anos para tentar aproximar a produção da demanda atual.
Uma área equivalente a uma grande região vinícola
A dimensão do plano ajuda a entender a gravidade do ajuste. Os 32,5 mil hectares previstos representam uma área próxima à extensão total dos vinhedos de Champagne. Não significa que uma região inteira será eliminada: o programa se distribui por diferentes áreas e produtores interessados em abandonar parcelas de vinhedos. Ainda assim, a comparação mostra a escala da intervenção.
Segundo a Revue du Vin de France, o novo programa sucede uma campanha iniciada em 2024 que destinou €104 milhões à retirada de aproximadamente 27,5 mil hectares. Somadas, as duas iniciativas podem levar ao desaparecimento de cerca de 60 mil hectares em poucos anos.
Por que arrancar videiras?
A decisão parece contraditória em um país cuja imagem está profundamente ligada ao vinho, mas responde a um problema econômico simples: parte da produção deixou de encontrar mercado nas mesmas condições de décadas anteriores. O consumo doméstico francês caiu estruturalmente, enquanto mudanças de hábito também pressionam a demanda em importantes mercados internacionais.
Quando a produção permanece acima da capacidade de venda por períodos prolongados, estoques aumentam e preços ficam pressionados. Para produtores localizados em áreas com menor valorização ou que dependem de vinhos de grande volume, continuar cultivando pode deixar de ser economicamente sustentável.
Regiões mais expostas
Campanhas anteriores atingiram principalmente áreas como Languedoc-Roussillon, Bordeaux e Rhône. São regiões muito diferentes entre si, mas que possuem parcelas significativas de produção expostas às mudanças do mercado. Bordeaux, por exemplo, convive simultaneamente com rótulos mundialmente disputados e produtores que enfrentam dificuldades para comercializar vinhos de faixas mais acessíveis.
A retirada subsidiada tenta evitar que o ajuste ocorra apenas por meio de falências e abandono desordenado. Ao compensar produtores que deixam definitivamente determinadas áreas, o governo busca reduzir capacidade produtiva e oferecer uma saída econômica para propriedades sem perspectiva clara de rentabilidade.
O dilema de longo prazo
Reduzir vinhedos pode ajudar a equilibrar oferta e demanda, mas não resolve sozinho as causas da crise. O setor continua discutindo como atrair consumidores mais jovens, adaptar estilos e embalagens, lidar com a concorrência de outras bebidas e responder à tendência de moderação no consumo de álcool.
Há ainda uma questão territorial. Vinhedos não representam apenas produção agrícola: moldam paisagens, sustentam empregos e fazem parte da economia de comunidades inteiras. Uma redução ampla de área pode alterar a dinâmica de municípios que cresceram em torno da viticultura.
A nova campanha francesa é, portanto, mais do que uma medida agrícola. Ela materializa uma transformação estrutural do mercado mundial do vinho. Um dos países mais tradicionais do setor está aceitando produzir menos para tentar construir um equilíbrio compatível com um mundo que também está bebendo menos vinho.



