O vinho sem álcool deixou de ser apenas uma curiosidade de prateleira e começa a receber investimentos industriais de grandes produtores. Em janeiro, a francesa Castel-Vins anunciou €10 milhões para uma nova estrutura de desalcoolização em La Chapelle-Heulin, no oeste da França, destinada à produção de vinhos tranquilos e espumantes com teor alcoólico reduzido ou zero.
Um investimento industrial, não apenas de marketing
O valor chama atenção porque mostra uma aposta em capacidade produtiva. Produzir vinho sem álcool com qualidade não significa simplesmente retirar etanol de um vinho pronto. O processo precisa preservar aromas, equilíbrio e sensação de boca, características que podem ser afetadas quando o álcool é removido.
A nova estrutura da Castel busca justamente controlar essa etapa de maneira mais sofisticada. A empresa pretende atender suas próprias marcas e operações de distribuição, ampliando linhas voltadas a consumidores que desejam participar do ritual do vinho sem necessariamente consumir álcool.
Mudança de hábito chega às grandes empresas
Segundo dados citados pela empresa a partir do barômetro Vinomètre 2025, 16% dos consumidores franceses de vinho já consomem opções sem álcool. O levantamento envolveu mais de cinco mil entrevistados. Embora isso não signifique que 16% do vinho vendido na França seja sem álcool, o número indica que a categoria já entrou no repertório de uma parcela relevante dos consumidores.
Esse comportamento é reforçado por movimentos como o Dry January, pela busca de moderação e por consumidores que alternam bebidas alcoólicas e não alcoólicas conforme a ocasião. Em vez de uma divisão simples entre quem bebe e quem não bebe, surge um público que pode consumir vinho tradicional em um jantar e escolher uma opção zero álcool em outro momento.
O desafio continua sendo o sabor
O crescimento comercial não elimina a principal dificuldade técnica da categoria. O álcool contribui para corpo, textura, percepção de doçura e transporte de aromas. Ao removê-lo, o produtor precisa reconstruir o equilíbrio sem transformar a bebida em algo excessivamente doce ou aromatizado.
Por isso, tecnologias de desalcoolização tornaram-se um campo importante de investimento. Processos mais precisos permitem trabalhar em temperaturas e pressões que buscam reduzir perdas aromáticas. Ainda assim, o resultado varia muito entre produtores e estilos.
Concorrência por uma nova ocasião de consumo
Para as vinícolas, o segmento representa também uma forma de não perder completamente consumidores em ocasiões nas quais o álcool deixou de ser desejado. A concorrência não ocorre apenas entre vinhos. Cervejas zero, coquetéis sem álcool, kombuchas, refrigerantes premium e outras bebidas disputam o mesmo espaço.
Grandes grupos entram nessa categoria porque enxergam uma mudança que pode ser duradoura. Isso não significa que o vinho tradicional esteja sendo substituído, mas que o portfólio de bebidas do consumidor está ficando mais fragmentado.
O que observar em 2026
O investimento da Castel é um sinal concreto de que o NoLo começa a exigir escala, tecnologia e distribuição. O próximo teste será descobrir se consumidores repetem a compra depois da curiosidade inicial e quais faixas de preço conseguem sustentar.
Para o setor do vinho, a discussão é estratégica. Se a moderação continuar avançando, oferecer uma alternativa pode ser mais interessante do que simplesmente tentar convencer o público a manter hábitos anteriores. A indústria começa a tratar o vinho sem álcool não como uma negação do vinho, mas como uma nova categoria construída a partir dele.



